20 anos sem Renato Russo

20 anos sem Renato Russo

O ritmo de lançamentos da obra de Renato Russo e da Legião Urbana é maior agora, depois da morte do cantor, do que enquanto ele era vivo.
Não tivesse saído de cena há exatos 20 anos, Renato Russo (1960 – 1996) poderia estar festejando hoje 56 anos de vida. Seria um senhor que, provavelmente, já não encarnaria o líder messiânico do rock brasileiro. Até porque esse tal de rock brasileiro atualmente anda confinado em guetos do mercado e já não fala para amplas multidões como nas décadas de 1980 e 1990, o tempo de Russo. Mas nossos ídolos ainda são os mesmos e, por isso mesmo, os 20 anos de morte do mentor da banda Legião Urbana estão sendo devidamente lembrados.

Um dos motores do universo pop, a indústria da saudade foi acionada para produzir caixa com reedições dos álbuns da obra solo do artista, disco-tributo com gravações de músicas de Russo por nomes da cena indie, livro (a inédita biografia da fictícia The 42nd Street Band, escrita por Russo na adolescência), musical de teatro (de volta à cena hoje no Rio) e megaexposição prevista para ser inaugurada ano que vem, em São Paulo.

Renato Russo partiu aos 36 anos, mesma idade com que a também cultuada cantora Elis Regina (1945 – 1982) morreu. Não saiu de cena com os míticos 27 anos de outros ídolos, mas morreu jovem o suficiente para ter nome e obra cristalizados na memória afetiva do Brasil que ouve algo mais do que sertanejo, forró eletrônico e funk.

Como artista bom é artista morto que gera lucros para essa indústria da saudade, coletâneas, discos ao vivo da Legião Urbana e outros projetos póstumos (como CDs de duetos e disco com sobras de estúdio) têm sido desovados no falido mercado com periodicidade regular desde 1997. Muitos têm valor documental. Alguns conseguem agregar valor artístico. Contudo, nenhum alterou o status da obra de Renato Russo, dentro e fora da Legião Urbana.
Na obra solo, Russo expôs face mais pessoal e passional. "The Stonewall celebration concert" (1994) é álbum que ainda emociona gays de todas as gerações por celebrar o orgulho do amor entre dois homens. Orgulho que Russo foi descobrindo e cultivando na medida em que foi saindo do armário, primeiramente na esfera privada e, aos poucos, na esfera pública.

"Equilíbrio distante" (1995), segundo e último álbum da discografia solo lançada por Russo em vida, já sinaliza no título as inquietudes de artista guiado por amores e tormentos, gozos e culpas. É um disco de canções italianas que dá a pista do que Russo poderia estar gravando hoje, aos 56 anos, se ainda continuasse em cena. Artista de temperamento imprevisto, movido a paixões, Russo podia gostar de uma banda inglesa de pós-punk como P.i.L com o mesmo fervor com que cultuava uma música do repertório da fabricada boyband Menudos.

Talvez por ter refletido tanto a alma inquieta na música que compôs, Renato Russo vive. A morte precoce o impediu de desvirtuar – quem sabe? – obra que permanece imaculada, quase santificada, por ser verdadeira, calcada nos princípios éticos do amor e da política. Mas honesta o suficiente para apontar o dedo para os burgueses sem religião com fúria santa. Filho da revolução, Renato Russo fez a própria revolução nessa obra que, mesmo esticada ao extremo em nome do lucro, se conserva relevante e, sobretudo, atual.

(Por Mauro Ferreira)

A produção solo de Renato será reunida em um box comemorativo com cinco discos, que chega às lojas em 21 de outubro. Serão relançados “The Stonewall celebration concert” (1994), “Equilíbrio distante” (1995), “O último solo” (1997), “Presente” (2003) e “Duetos” (2010). “A junção de trabalhos tão diversos em um só volume serve para comprovar que, como nas músicas da Legião, Renato continua cantando em primeira pessoa – mesmo ao interpretar versos escritos por outros compositores”, diz o texto de apresentação do material, escrito por Carlos Marcelo, biógrafo do artista.

Na mesma data, será disponibilizada em plataformas de streaming e para download uma faixa inédita do músico: uma versão roqueira de “Il mondo degli altri”, gravada originalmente para “Equilíbrio distante”, mas que ficou fora do disco porque Renato achou que a canção destoava do resto do repertório. A faixa foi resgatada pelo coprodutor do álbum, Carlos Trilha. Em 1997, ela apareceu com arranjo romântico no póstumo “O último solo”

Deixe seu Comentário